Um multiculturalismo que separa

Eu li o texto “A_Question of_Belonging: multiculturalism and citizenship” do Neil Bissoondath para a escola (na aula de inglês estamos falando de geração Y, multiculturalismo e questões de gênero) e confesso que eu adorei o texto e eu tenho muita coisa pra pensar. Eu coloquei o PDF ali pra quem quiser ler o texto na integra (gigante! eu sei…).

Como futuros imigrantes nós sempre ouvimos/lemos muita coisa da vida aqui. Vemos que o Canada promove igualdade, tolerância, mas também ouvimos/lemos varias historias de preconceito contra imigrantes inclusive para conseguir emprego. E é aí que tudo fica meio turvo. Cade os valores canadenses??

Eu sempre achei que o Brasil e o Canada sãos países com gente de toda parte do mundo a diferença é que no Brasil a gente já se misturou faz muito tempo e hoje somos todos brasileiros (e depois de ler esse texto dou mais valor a isso sabia) enquanto aqui todo mundo continua em seus grupos, ou seja, acabam virando Chineses no Canada, latinos no Canada, Árabes no Canada, russos no Canada e assim por diante. O Canada é essa grande nação que se diz abraçar todas as outras através da seu multiculturalismo e sua dita tolerância. Mas como disse o Neil o Multiculturalism Act é genérico e usa com frequencia palavras como: reconhecimento, apreciação, respeito, promover, preservar e outras do gênero. Parece até que esta falando de um patrimonio da humanidade. E acaba por afirmar que os imigrantes não precisam mudar quem eles são colocando na sociedade a responsabilidade de se ajustar aos que chegam. Como se os imigrantes fosse continuar aqui a vida do jeito de levam lá no seu pais de origem. Como se a cultura daqui não fosse influenciar o individuo. Nós, como seres humanos, não somos estáticos o ambiente muda a gente. As experiencias nos enriquecem e com o tempo mudamos. Eu não sou as a menina que chegou aqui há quase dois anos. Muito menos a menina que era quando vim pro Canada pela primeira vez em 2008. Não tem pra que proteger algo que eu não sou mais. Eu, particularmente quero me “enturmar” aqui. Não quero apenas ser uma brasileira em Montreal. Eu quero ir além e eventualmente “ser daqui”. Entender como a cidade, a província e o pais funcionam. Não quero ninguem me obrigando a ser a ~tipica brasileira~ de samba, carnaval e futebol – nunca fui isso mesmo. O Brasil é mais que isso. Os ~haters que me perdoem, mas é um país cheio de belezas e riquezas que nem sempre valorizamos. Mas na hora de representar o país ficamos sempre amarrados a esses conceitos – e outros preconceitos. No texto Neil ressaltou uma coisa que eu não havia reparado ainda: a simplificação da cultura. Que nos milhões de festivais que o Canada tem pra promover e valorizar o multiculturalismo são muito superficiais ainda presos a esteriótipos apenas para entretenimento. Não promover o conhecimento e a quebra de barreiras. Você não sai sabendo ou conhecendo mais do que quando entrou. É verdade. Acaba por ser tudo um grande teatro preso no tempo ou num mesmo cenário (e muito provavelmente do mesmo lugar. Quem de fora do pais vai saber de Santa Catarina ou Mato Grosso? Mas quase certo que sabem Rio). Não representa a realidade daquele lugar, a situação atual nem como são as pessoas. Muito triste isso. O Canadá esta perdendo uma oportunidade de ser um país muito rico em conhecimento. Cada imigrante pode ser considerado uma fonte de conhecimento e uma ponte até aquela cultura. Não tempo pra que ficar repetindo esteriótipos.

E com toda essa questão de proteger e preservar a cultura de fora – e de certa forma não se impor nem seus valores –  o país se coloca em situações muito complicadas. Neil cita exemplos como dos Serbians vs Croatians em que um membro da Ontario Legislature não quis se desculpar pelo o que disse sobre os Serbians. Pelo o que eu entendi esses dois grupos tem uma rixa antiga que é passada a diante. Agora o que acontece quando eles imigram pro Canada? O que acontece com essa rixa? Ou como o caso em que faz parte da cultura dos West Indians fazerem festa com musica alta e convidar vizinhos com comida e bebida de sobra com intuito de diversão. Mas na realidade daqui acabam virando um vizinho festeiro que toca musica alta e perturba e fica sendo mal visto pelos outros. O que o Canada faz sobre isso? Dai que se alguém reclamar do som alto acaba sendo visto como intolerância e agressão a cultura (oi?).   Afinal ele me encoraja a levar quem eu sou, minha cultura, raízes e costumes comigo. Junto com preconceitos, rivalidades, intolerância, pensamentos/atitudes radicais. Não faltou um limite? Não seria essa a oportunidade do Canada se impor como um lugar onde a aceitação, igualdade, o respeito prevalecem? Aí o texto traz um exemplo que vai ainda mais longe e eu, pessoalmente, fico que não saberia o que fazer como ministra ou sei la quem decide essas coisas: a circuncisão feminina. Houve um aumento no pedido desse procedimento. Acontece que por aqui isso é visto como mutilação e ainda traz repercussão na saúde da mulher como sangramentos graves, infecções frequentes, dor durante o sexo, hemorragia durante o parto ou infertilidade. É uma pratica que não faz sentido dentro da mentalidade Ocidental. Mas é cultural, e aí? E acaba que as famílias acabam por mandar as meninas pro país para fazer o precedimento que eles gostariam que fosse realizado no Canada.

Toda essa questão do ~multiculturalismo~ faz a gente olhar uns pros outros com essa premissa de querem encaixar todo mundo num grupo, seja ele étnico, cultural ou religioso. E é assim que nascem diálogos como:

– Da onde você é?

– Daqui.

– Não. Da onde você é mesmo. Seus pais sua familia?

No inicio eu achava que eu tinha A cara de turista. Mas no colégio comecei a perceber que é a tipica pergunta daqui. Até quem nasceu aqui recebe essa pergunta (especialmente se tem uma feição muito ~étnica). Ser daqui não satisfaz. Tem que dizer de onde seus pais (ou talvez avós) vieram. Ucrânia, Jamaica, Tailandia, Coréia. E assim nascem os alguma-coisa-canadian. Porque ser canadense não responde a pergunta. Nesse momento é que os que mudam pra cá e seus filhos ficam com uma identificação mista. Quem nasceu aqui é canadense primeiro ou a nacionalidade de seus pais primeiro. As vezes eu sinto que essa identificação de “grupo” conta mais. É ser indiano primeiro, croata primeiro, chines primeiro e depois canadense. Ao ponto que os filhos de imigrante foram lutar na Croácia. Eu acho estranho que crianças que nasceram e cresceram aqui tomem parte numa briga que “nem é deles”. Imagina que eu tenho um filho aqui e ensino ele a não gostar de argentinos. Faz sentido? Pra mim não. Já é besta isso no brasil que dirá num país que está na outra ponta do continente.

Quem sai perdendo é o Canada que constrói um país dividido, segmentado, que mantém preconceitos em vez de minimiza-los. Vira um país cheio de clubinhos e nenhuma noção de unidade e conjunto coeso. Ficam passando essa ideia de um grande mosaico de culturas e esquece de fortalecer a própria. Os valores do Canada soam bem legais, mas seria mais legal ainda se fossem trabalhado para que criar uma sociedade coesa.

 

Ela

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9 pensamentos sobre “Um multiculturalismo que separa

  1. Oi de novo, Ela 🙂

    Eu entendo sua indagação e concordo que deveriam haver maiores esforços por parte da liderança para promover maior integração entre os diferentes povos, mas isso não é novidade.
    Teoricamente, quem produz cultura é o povo e é produzida a partir de experiencias vividas e partilhadas entre si. Quem chega no canadá já vem com seu background cultural e é supernormal vc passar isso para seus filhos, o problema é que este background pode vir com alguns preconceitos que não fazem sentido em uma nova terra, como vc mesmo já disse.
    Mas, se voltarmos alguns anos atrás, no EUA, isso não foi muito diferente, lá também não houve muita integração por parte do governo, menos que o canadá atual, rss. O Estados Unidos também foi alvo de migrantes durante e após a segunda guerra mundial, 1940-1945 e nas décadas seguintes houve muito preconceito e muita briga feia por lá, veja o exemplo de Nova Iorque, que durante muito tempo foi uma das cidades mais perigosas e corruptas do EUA, mas depois de um prefeito ítalo-americano, tudo mudou, mas veja bem, isso foi +/- na década de 80 (se não me engando).

    Por isso eu acho que ainda vai rolar muito desses conceitos e preconceitos carregados de uma triste intolerância que, infelizmente tem suas razões fundamentadas em algo bem mais antigo, por isso que é tão profundo e só vai “passar” daqui um booom tempo.

    Pelo menos essa é minha opinião sobre o assunto, não cheguei a ler o texto ainda, mas irei 🙂

    • Ola! 🙂

      Ate onde eu sei nos EUA eles querem mais é que o imigrante esqueca a sua patria e seja apenas “Americano”. Eles nao querem dar muita change pra esse sentimento de dupla nacionalidade. Querem a certeza que em caso de guerra o seu lado é o mesmo que o deles a ponto de vc entrar no army pra lutar contra o seu pais #tenso (sabe, eles sao meio cheios de inimigos rss).
      O problema pra mim é colocar essa “valorizacao” a cultura de fora a cima de tudo. A cima do respeito ao proximo (caso da musica alta) ou dos valores canadenses.
      Se puder leia o texto sim.

      Ela

  2. Ela,

    Otimo post, eu concordo com você!!!!
    Eu percebo que aqui se voce ver um filipino, ele vai estar conversando com outro felipino. O mesmo com chines, entre outros. Como voce disse, eu nao quero ficar em grupo de brasileiro, sambando e etc. Quero fazer parte da cidade, provincia e país. Porem como eles sempre falam, cada um é cada um.

    • Obrigada William 🙂

      Acaba ficando limitado pra gente pq fica dificil pra gente se enturmar – ja que os grupos acabam falando cada um em sua lingua. Mas eu sei q acabo falando pt com brs mas geralmente é pq a outra pessoa nao quer falar ingles. Fazer o q rsss
      Essa falta de coesao e unidade é que é chato. Todo mundo continua agindo como se estivesse em seu pais ainda :/
      Ela

  3. Ótimo texto!
    A questão é simples. O Canadá é um país formado por imigrantes. Quando o Canadá inventiva você a vir e trazer sua cultura, ele sabe em termos de cultura, você não vai mudar. Cultura é cultura. Você pode não andar com brasileiros, pode não gostar de samba, mas se você veio do Brasil, é assim que eles lhe enxergam.
    Seus filhos por outro lado, esse sim serão canadenses. Mas serão canadenses se e somente se, você deixar. O que não pode acontecer é os imigrantes criarem seus filhos baseados na própria cultura… você não pode criar seus filhos jogar futebol e não hockey. Os indianos não deveriam impedir seus filhos de dormir na casa do amiguinho no final de semana. Os mexicamos não deveriam incentivar os filhos a comer pimenta.

    • Obrigada 🙂

      É claro que nao vou deixar de ser brasileira. A essa altura da minha vida eu passei 98% da minha vida no brasil. Eu sei como sao as pessoas e como as coisas funcionam e vai levar um bom tempo para me ajustar aqui e ainda assim eu serei brasileira. So que eu nao quero ficar presa a imagem e ao esteriotipo do br por causa disso. É diferente.
      E eu vou infelizmente discordar de vc. Se eu tiver filhos aqui eu vou querer sim passar um pouco da minha cultura pra eles. Que conhecam a lingua e grandes nomes do brasil. E qualquer pessoa vai criar os filhos dentro da sua cultura mesmo que inconscientemente pq é o que vc conhece. E dentro dos seus valores pode ser uma que a cultura daquo te pareca “errada”. Aqui é super normal maconha e quase todo mundo fuma alguma coisa. E eu nao gosto disso. Nao gostaria dos meus filhos achando isso normal. Por outro lado se eles vao jogar hockey ou futebol isso é escolha deles. Por que seria certo influenciar seu filho/a ser de um certo time ai mas nao pode influenciar um certo esporte aqui? Pra mim é a mesma coisa.
      É uma questao bem delicada, sabe. O pais nao pode mandar na vida pessoal as pessoas (como eles vao criar seus filhos por exemplo) mas devia criar o senso de uninao e comunidade e fazer com que imigrantes e seus descendentes saibam o que é ‘ser canadense” e quais sao os valores daqui. A campanha “eu sou brasileiro e nao desisto nunca” nada mais é do que isso.

      Ela

      • Oi Ela,

        Sim, concordo com você. Qualquer pessoa vai criar os filhos dentra da própria cultura. Mas por mais que você passe seu lado brasileiro pra eles, eles não vão crescer no Brasil. Eles vão crescer no país do hockey e não do futebol.
        Eles vão conhecer e até ter um pouco do Brasil.. do idioma, da música. da comida, whatever you want them to know.
        Mas qual idioma você acha que eles vão falar na casa deles quando eles tiverem seus filhos? Either English or French.
        O português vai morrer e eles serão mais canadenses que brasileiros.. seus netos? Esses serão canadenses.
        Enfim, essa é a cultura do Canadá… país de imigrantes que formam canadenses após um ou duas geracões.
        Quando cheguei no Canadá eu me apresentava como fulano, brasileiro e blá blá. Mas hoje eu sou apenas o fulano.

      • Oi novamente

        Claro que a relacao dos filhos e netos com o pais “de origem” é diferente. Mas a impressao que eu tenho é que aqui os filhos muitas vezes a me parecem tao ligados com o pais ou cultura dos pais. Como se cada cultura conseguisse se refazer aqui sabe?
        Eu tb nao quero ficar carregando esse ~sobrenome. Fulana “Do Brasil” -_-‘

  4. Pingback: O interculturalismo do Quebec (continuando) | QUE BEc LE ZA !

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